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Imóvel sem escritura: quais os riscos e como regularizar?

2 de out.
6 min de leitura


É bastante comum encontrar imóveis que foram comprados há anos, pagos integralmente e ocupados normalmente, mas que nunca tiveram a documentação regularizada.


Às vezes existe apenas um contrato particular de compra e venda. Em outras situações, o imóvel passou de uma pessoa para outra diversas vezes, houve falecimento do antigo proprietário, o vendedor desapareceu ou simplesmente nunca foi realizada a escritura e o registro.


Surge, então, uma dúvida frequente:


Quem possui um imóvel sem escritura é realmente proprietário? E como regularizar essa situação?


A resposta depende da documentação existente, da origem da posse e do histórico do imóvel.



Escritura e registro não são a mesma coisa


Antes de falar em regularização, é importante diferenciar dois documentos que frequentemente são confundidos.


A escritura pública é o instrumento utilizado para formalizar determinados negócios jurídicos imobiliários perante o Tabelionato de Notas. Nos negócios envolvendo direitos reais sobre imóveis de valor superior a trinta salários mínimos, ela é, como regra, exigida pelo Código Civil, salvo as hipóteses em que a própria legislação admite outro instrumento.


Já o registro ocorre no Cartório de Registro de Imóveis.


E essa diferença é fundamental.


Nos negócios realizados entre pessoas vivas, não basta assinar a escritura para transferir a propriedade: é necessário registrar o título na matrícula do imóvel.


Por isso, é possível encontrar situações em que:


  • existe contrato de compra e venda, mas nunca foi feita escritura;

  • existe escritura, mas ela nunca foi registrada;

  • existem sucessivos contratos particulares entre diferentes compradores;

  • o imóvel continua registrado em nome de alguém que já faleceu;

  • o ocupante possui o imóvel há muitos anos, mas não possui título registrado em seu nome.


Cada uma dessas situações exige uma análise diferente.


Tenho apenas contrato de compra e venda. O imóvel é meu?


O contrato particular pode produzir importantes efeitos jurídicos entre comprador e vendedor, mas ele não deve ser confundido com o registro da propriedade.


Enquanto não houver o registro do título adequado na matrícula, o imóvel poderá continuar formalmente registrado em nome do antigo proprietário.


Isso explica por que alguém pode ter comprado, pago, recebido as chaves e morar no imóvel durante anos e, ainda assim, descobrir posteriormente que a matrícula continua em nome do vendedor ou até mesmo de proprietários anteriores.


O contrato, entretanto, pode ser extremamente importante para demonstrar a origem da posse, o negócio realizado, o pagamento do preço e a cadeia de transmissões.


Por isso, quem possui apenas um “contrato de gaveta” não deve simplesmente descartá-lo ou presumir que não possui nenhum direito.


Quais são os riscos de manter um imóvel sem regularização?


A ausência de regularização pode permanecer aparentemente sem consequências durante muitos anos e revelar o problema justamente quando o proprietário precisa vender, financiar, inventariar ou utilizar o imóvel como garantia.


Entre as dificuldades que podem surgir estão:


  • problemas para vender o imóvel de forma regular;

  • dificuldade ou impossibilidade de utilização em determinadas operações de financiamento;

  • divergências entre quem ocupa o imóvel e quem consta como proprietário na matrícula;

  • necessidade de localizar antigos vendedores ou seus herdeiros;

  • aumento da complexidade documental com o passar dos anos;

  • dificuldades em inventários e partilhas;

  • conflitos entre herdeiros;

  • sucessivas compras e vendas realizadas apenas por contratos particulares;

  • existência de pendências registrais que somente são descobertas anos depois.


Quanto mais longa for a cadeia informal de transmissões, maior tende a ser o trabalho necessário para reconstruir documentalmente a origem da aquisição.


Por isso, deixar a regularização para o futuro nem sempre é a alternativa mais simples.


Como regularizar um imóvel sem escritura?


Não existe uma única resposta.


A solução depende principalmente de quem aparece como proprietário na matrícula, quais documentos existem, como ocorreu a aquisição e há quanto tempo a pessoa exerce a posse.

Entre as possibilidades mais comuns estão:


1. Escritura pública e registro


Quando comprador e vendedor estão disponíveis, a documentação está regular e o negócio permite a formalização convencional, pode ser possível lavrar o título adequado e posteriormente levá-lo ao Registro de Imóveis.


Essa costuma ser a situação mais simples, mas antes é necessário verificar a matrícula, os documentos das partes, eventuais restrições e as características específicas da negociação.


2. Adjudicação compulsória


Imagine que o comprador tenha cumprido sua obrigação, mas o vendedor não queira ou não possa mais outorgar o título definitivo.


Dependendo do caso, poderá ser cabível a adjudicação compulsória, instrumento destinado a viabilizar a transferência do imóvel quando existem os requisitos jurídicos necessários, apesar da ausência da colaboração para formalização definitiva.


Atualmente, a legislação também admite a adjudicação compulsória pela via extrajudicial, diretamente perante o Registro de Imóveis, quando preenchidos os requisitos legais.


Isso significa que nem toda situação desse tipo necessariamente precisa começar com uma ação judicial.


A escolha da via, entretanto, depende da análise do contrato, do pagamento, da documentação disponível e das circunstâncias concretas da aquisição.


3. Usucapião


Em determinadas situações, a regularização poderá ocorrer por usucapião.


A usucapião é uma forma de aquisição da propriedade baseada no exercício da posse durante determinado período e no preenchimento dos demais requisitos previstos em lei.


Existem diferentes modalidades, com requisitos e prazos distintos.


Além da via judicial, a legislação brasileira admite o reconhecimento da usucapião pela via extrajudicial, perante o Registro de Imóveis, quando presentes as condições necessárias.


Por isso, simplesmente dizer que alguém “mora no imóvel há muitos anos” não é suficiente para concluir automaticamente que existe direito à usucapião.


É necessário analisar, entre outros elementos:


  • a origem da posse;

  • há quanto tempo ela é exercida;

  • se houve oposição;

  • a utilização dada ao imóvel;

  • a existência de contratos;

  • a matrícula e a cadeia registral;

  • as características do imóvel;

  • a documentação disponível.


4. Inventário e regularização sucessória


Outro cenário frequente ocorre quando o imóvel continua registrado em nome de uma pessoa que faleceu.


Nessa hipótese, o problema pode não ser propriamente a falta de escritura, mas a ausência de regularização da sucessão.


Dependendo da situação, pode ser necessário realizar ou complementar inventário, partilha, sobrepartilha ou outros atos para permitir que o imóvel seja finalmente registrado em nome de quem efetivamente possui os direitos sobre ele.


5. Regularização fundiária e outras situações registrais


Há ainda imóveis inseridos em núcleos urbanos informais, parcelamentos antigos, áreas com divergências de medidas, matrículas que não correspondem adequadamente à ocupação existente e outras situações que podem demandar procedimentos específicos de regularização fundiária ou registral.


Por isso, “não tenho escritura” descreve o problema, mas não revela necessariamente qual é a solução jurídica.


Comprei um imóvel de alguém que também não tinha escritura. E agora?


Essa situação merece ainda mais atenção.


É comum encontrar cadeias como esta:


proprietário registral → comprador A → comprador B → comprador C


Todos fizeram contratos particulares, mas nenhuma das transmissões chegou ao Registro de Imóveis.


Nesse caso, antes de escolher qualquer procedimento, é necessário reconstruir a cadeia documental e verificar:

  • quem consta atualmente na matrícula;

  • quais contratos foram celebrados;

  • se os pagamentos podem ser comprovados;

  • se as partes anteriores ainda podem ser localizadas;

  • se houve falecimentos;

  • há quanto tempo existe a posse;

  • se existem ônus ou restrições na matrícula;

  • e qual instrumento jurídico oferece o caminho adequado para a regularização.


Tentar simplesmente “fazer uma escritura” sem compreender o histórico do imóvel pode não resolver o problema.


Posso comprar um imóvel sem escritura?


A ausência de escritura não significa, por si só, que nenhuma negociação possa ser realizada.


Contudo, comprar um imóvel irregular sem compreender exatamente a situação jurídica representa um risco consideravelmente maior.


Antes de pagar sinal, entrada ou parte relevante do preço, é recomendável verificar pelo menos a matrícula atualizada, a origem da aquisição do vendedor, os contratos existentes, eventuais ônus e qual será efetivamente o caminho necessário para colocar o imóvel em nome do comprador.


Em alguns casos, a regularização é relativamente simples.


Em outros, poderá depender de inventário, adjudicação, usucapião, retificação ou de uma cadeia documental muito mais complexa.


O importante é que o comprador conheça isso antes de assumir a obrigação e desembolsar valores, e não somente quando tentar registrar o imóvel.


Qual é o primeiro passo para regularizar?


O primeiro passo normalmente não é escolher imediatamente entre escritura, usucapião ou adjudicação.


É realizar um diagnóstico documental do imóvel.


A análise costuma começar pela matrícula atualizada e pelos documentos que demonstram como a posse ou os direitos sobre o imóvel foram adquiridos, como contratos, recibos, escrituras antigas, documentos sucessórios e demais elementos disponíveis.


Somente depois de compreender a situação registral e a origem da ocupação é possível definir com segurança qual procedimento é juridicamente adequado.


Imóvel sem escritura não significa imóvel sem solução


Muitos imóveis permanecem irregulares durante décadas simplesmente porque seus ocupantes acreditam que a única solução seria localizar o antigo proprietário e convencê-lo a assinar uma escritura.


Nem sempre é assim.


A legislação prevê diferentes instrumentos para regularização imobiliária, e a solução depende da história específica de cada imóvel.


Por outro lado, quanto antes a documentação for analisada, maior tende a ser a possibilidade de preservar contratos, comprovantes e informações importantes para solucionar a situação.


Na regularização imobiliária, o primeiro passo é descobrir exatamente o que existe no papel e comparar isso com o que aconteceu na prática.

 
 
 

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